Relacionamentos em sequência: quando estar com alguém vira uma necessidade
É comum ouvirmos frases como: “Eu não sei ficar sozinho(a)”, “Um relacionamento termina e logo começo outro” ou “Preciso de alguém para me sentir bem”.
Os chamados relacionamentos sequenciais — quando uma pessoa emenda um vínculo no outro, com pouco ou nenhum espaço entre eles — não são, por si só, um problema. A questão central é o que sustenta essa necessidade constante de estar com alguém.
Na clínica, vejo que muitas dessas histórias não falam apenas de amor, mas de regulação emocional, medo da solidão e dificuldade de estar consigo mesmo(a).
O que está por trás dessa urgência por vínculo?
Do ponto de vista da Compassion Focused Therapy (CFT), podemos compreender esse padrão como uma tentativa do sistema emocional de ameaça de buscar segurança.
O cérebro humano foi moldado para se conectar. Para algumas pessoas, ficar sozinho ativa pensamentos como:
-
“Vou ser abandonado(a)”
-
“Não sou suficiente”
-
“Algo está errado comigo”
Esses pensamentos não surgem do nada. Muitas vezes estão ligados a experiências precoces de rejeição, negligência emocional ou relações instáveis. O problema não é a necessidade de vínculo, mas quando o relacionamento vira a única fonte de calma, valor ou pertencimento.
A contribuição da TCC: pensamentos que mantêm o ciclo
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) nos ajuda a identificar crenças centrais comuns nesses casos, como:
-
“Só sou valioso(a) se alguém me escolher”
-
“Estar sozinho(a) significa fracasso”
-
“Preciso de outra pessoa para me completar”
Essas crenças alimentam comportamentos automáticos: tolerar relações pouco saudáveis, medo intenso do término ou iniciar novos vínculos rapidamente para evitar o desconforto emocional.
Quando o relacionamento termina, o sofrimento não vem apenas da perda do outro, mas do reencontro com pensamentos antigos e dolorosos sobre si mesmo(a).
ACT: e se o desconforto não for um inimigo?
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) nos convida a uma pergunta importante:
E se a solidão, o vazio ou a tristeza não precisassem ser eliminados imediatamente?
Em vez de lutar contra essas emoções ou anestesiá-las com um novo relacionamento, a ACT propõe abrir espaço para sentir, sem que isso defina quem a pessoa é ou o que ela precisa fazer.
Estar sozinho(a) pode doer — e ainda assim ser vivido com consciência, escolha e alinhamento com valores.
A pergunta deixa de ser “Como faço para parar de sentir isso?” e passa a ser:
“Que tipo de pessoa eu quero ser, mesmo sentindo isso?”
Autocompaixão: aprender a ser um lugar seguro para si
Na CFT, trabalhamos o desenvolvimento do sistema de afiliação e cuidado, ou seja, a capacidade de oferecer a si mesmo(a) acolhimento, compreensão e gentileza.
Para quem vive relacionamentos em sequência, muitas vezes falta algo essencial:
ser uma base segura para si.
Autocompaixão não é desistir de se relacionar. É aprender a dizer internamente:
“Está tudo bem sentir medo de ficar só. Eu estou aqui comigo.”
Quando essa relação interna começa a se fortalecer, os relacionamentos externos deixam de ser uma urgência e passam a ser escolhas.
Do “precisar” para o “querer”
Relacionamentos saudáveis não nascem da falta, mas da inteireza possível.
Isso não significa estar plenamente resolvido(a), mas não usar o outro como anestesia emocional.
Talvez o convite seja:
-
Pausar entre um relacionamento e outro
-
Olhar para os próprios padrões com curiosidade, não com culpa
-
Desenvolver recursos internos de cuidado e regulação emocional
Estar com alguém pode ser bonito.
Mas aprender a estar consigo mesmo(a) é transformador.
Se esse tema fez sentido para você, saiba que esses padrões podem ser compreendidos e trabalhados em psicoterapia, com respeito à história, ao ritmo e às emoções de cada pessoa.
💚 Cuidar da forma como nos relacionamos começa pela forma como nos relacionamos conosco.